JANELAS.ART

"Vendo as fotos da Nil Caniné, das janelas olhei a série com tantos gestos diferentes que comecei a pensar como poder olhar para fora tem tanta importância. E ai pensei que olhar pra dentro tem a mesma importância. Neste momento que vivemos não dá pra desperdiçar essa chance de ampliar nossa intuição olhando para fora sem deixar de olhar para dentro. Vamos aproveitar!"           

 junho/2020

Há alguns meses estamos vivendo de forma subjetiva. Ficar em casa tornou-se uma condição existencial. Nós nos subtraímos do ambiente urbano dentro da própria cidade. Subtraímos a nós mesmos da nossa existência física.

O projeto Janelas começou como um percurso afetivo, uma resposta às limitações de convivência impostas pela pandemia de 2020. Mas a fotografia, ainda bem, tem destas coisas: aquilo que a gente planeja para a imagem não é o que ela nos devolve. O olho da câmera está voltado para fora.

 

Minor White ao comentar a teoria da equivalência de Alfred Stieglitz mencionou a capacidade dos fotógrafos de usar o mundo visual como material plástico para seus próprios fins expressivos. Ele diz "o poder do equivalente, no que diz respeito à intenção expressivo-criativa do fotógrafo, reside no fato de ele poder transmitir e evocar sentimentos sobre coisas, situações e eventos que, por um motivo ou outro, não são ou não podem ser fotografados.”

A série fotográfica compõe aqui um itinerário por variados estados mentais e emocionais, na mesma intensidade em que o olhar peregrina por entre tijolos, vidro, cimento e esquadrias. A paisagem urbana se torna antropomórfica, a construção encarapaça o sujeito que a habita. As formas rígidas da arquitetura são tensionadas pela delicadeza da presença humana. Ao mesmo tempo em que o espírito de um tempo se manifesta, a cidade recolhida respira e nos coloca em perspectiva com nossa existência contemporânea, simultânea e efêmera.

Nesses tempos em que perdemos o espaço público, perdemos a relação do corpo com a cidade, e conversamos com os outros olhando para nossa própria imagem na tela, Nil inventou sua maneira de encontrar as pessoas no limiar do espaço privado. Em seu flagrante-registro há entre o sujeito afetivo e seu olho voador todo um universo de convenções coletivas que se apresentam. Não é apenas sobre como existir e resistir, mas também sobre como decidimos nos mostrar para o mundo além muros de nosso castelo.

Para mim, as imagens da artista referem-se sobretudo à ambiguidade espacial. Janela enquanto membrana física que separa o dentro do fora, que nos divide, mas que é também um portal entre o mundo que vemos e o mundo que nos olha. Limite para o corpo mas não para a mirada. Aprendi com Nil que a palavra deriva de Janus, a divindade bifronte da mitologia romana. Uma de suas faces sempre voltada para a frente, o porvir, e a outra, para trás, em apreciação ao passado.

maio/2020

Quando pensei em fotografar janelas, comecei de maneira despretensiosa e afetiva! Sair de casa para visitar amigos em tempos de quarentena não fazia muito sentido por conta do confinamento imposto pela pandemia.

Convidei o produtor Sérgio Martins, que não pensou duas vezes em embarcar nessa loucura. Ele pilotava o drone  e eu fotografava. 

Acredito que a condição de isolamento que nos encarcera dentro de nossas casas, promove uma espécie de exame de consciência compulsório, mesmo para aqueles que têm a possibilidade de habitar espaços amplos e arejados. 

Pensei em criar uma conexão, levar um pouco de carinho e quebrar a rotina, ou a falta dela... foi então que a ideia de percorrer "janelas amigas" para realizar ensaios fotográficos aéreos começou a tomar forma. Fazê-las se abrir seria um possibilidade de não me fechar durante a quarentena, e claro, matar a saudade dos amigos... Não gostava da ideia de simplesmente invadir a casa de pessoas e fotografá-las sem permissão neste momento. 

Enfrentei o medo de sair, de me contaminar, comecei a ligar e agendar os encontros. O convite era simples: estou fazendo um ensaio fotográfico nas janelas com um drone sobre o período de isolamento e adoraria que você fizesse parte. Topa?

 

Nos ensaios fotográficos, ou happenings aéreos, as pessoas poderiam se apresentar como quisessem... sérios,  sem roupas, fantasiados, protestando - o tema era livre - embora confinados. 

Tivemos algumas surpresas, acidentes com equipamento, convites para novos trabalhos, redes de proteção retiradas das varandas, lágrimas e sorrisos. Percebi com o projeto que retratar alguém é conseguir trazer esteticamente sua alma à superfície. Quando se tem amizade, admiração e afeto as coisas parecem fluir e aos poucos toda aquela troca de carinho me fez ver além das janelas... fachadas, arquitetura, reflexos, pastilhas. .

 

Estas frestas criadas nas edificações para ventilar e iluminar os ambientes internos são comparadas aos olhos da casa. Elas nos permitem a entrada de elementos como luz e ar, mas também possibilitam a extensão do olhar enquanto indivíduo que participa da ação observada. Elas  também representam a receptividade, abertura para as influências externas, simbolizam a consciência, ou ainda um portal para o inconsciente. 

Minhas janelas, antes cenários inertes, transformaram-se em molduras afetivas. Assim nasceu o Janelas.art

NIL CANINÉ

maio/2020

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